[penci_review id=”22830″]

Alguns anos atrás a BBC publicou um artigo dizendo que as mulheres falam em média 20 mil palavras por dia (fonte). Agora imagina se você estivesse limitada a 100? Vox é uma distopia da autora Christina Dalcher e a história é sobre um país dominado pela opressão, onde as mulheres foram obrigadas a se calar.

SOBRE A HISTÓRIA

[penci_blockquote style=”style-3″ align=”none” author=”Vox “]Talvez tenha sido isso o que aconteceu na Alemanha com os nazistas, na Bósnia com os sérvios, em Ruanda com os hutus. Às vezes eu refletia sobre isso, sobre como crianças podem se transformar em monstros, como aprendem que matar é certo e a opressão é justa, como em uma única geração o mundo pode mudar tanto até ficar irreconhecível.[/penci_blockquote]

Um governo autoritário, religioso e conservador adquiriu o poder dos EUA. Em consequência disso, as primeiras pessoas que perderam seus direitos foram as mulheres. No quadro atual, as mulheres só podem falar 100 palavras por dia e elas são contabilizadas através de um aparelho que fica localizado em seus pulsos. Quando a cota diária é excedida, a mesma é punida com uma descarga elétrica que vai intensificando a cada nova punição.

Mas não é só as mulheres que estão sendo punidas. Qualquer pessoa que não segue os princípios do novo governo sofrem as consequências. A Dra. Jean McClellan está tentando lidar com as atuais circunstâncias. Ela é casada com Patrick e tem 4 filhos, sendo que a caçula tem aproximadamente 6 anos e está aprendendo a lidar com esse modelo de sociedade.

Você é uma pessoa pura?

[penci_blockquote style=”style-2″ align=”right” author=”Vox”]Minha culpa começou há décadas, na primeira vez que não votei, nas vezes incontáveis em que disse a Jackie que estava ocupada demais para ir a uma de suas passeatas, fazer cartazes ou ligar para meus congressistas. [/penci_blockquote]

É difícil para Jean aceitar que nesse novo sistema o seu único papel é servir o lar. Ela teve que abrir mão das suas pesquisas e das suas conquistas, pois as mulheres foram impedidas de trabalhar. Da mesma forma que é difícil ver os seus filhos se moldando a esta nova realidade. O seu filho mais velho, um adolescente, concorda com o novo governo e se tornou opressor; e a mais nova mal conversa, pois aprendeu desde cedo que ela tem que ficar calada.

Não sei se com o quadro atual posso dizer que as coisas melhoram, mas à partir do momento que Jean recebe uma proposta de trabalhar na sua pesquisa, ela começa a sonhar com uma luz no fim do túnel. O presidente quer que ela desenvolva e invista em seu projeto sobre o estudo e funcionamento do cérebro. Agora Jean quer usar essa oportunidades para lutar pelos seus direitos e pelos direitos de todas as mulheres que foram silenciadas.

MINHA OPINIÃO

[penci_blockquote style=”style-2″ align=”left” author=”Vox”]A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada. [/penci_blockquote]

Eu já disse isso por aqui, mas torno a repetir: Eu amo distopia! Acredito ser o melhor gênero para nos tirar da zona de conforto e fazer com que a gente reflita sobre a sociedade em que vivemos e o futuro. Vox levanta tantas questões significativas e relevantes que eu nem sei por onde começar.

O livro fala sobre os direitos e igualdades, também aborda o papel da religião no governo, sem falar que o foco principal é o direito e desenvolvimento de linguagem. São tantos assuntos instigantes e necessários, que dormi pensando na história. Mas ao mesmo tempo fiquei decepcionada com a forma com que tudo isso foi desenvolvido.

Mas antes de criticar, preciso frisar e pontuar as coisas boas, não é mesmo? A trama é envolvente, logo nos primeiros capítulos sentimos empatia pela protagonista, pois ela tenta educar e se comunicar com a sua família mesmo com as suas limitações. Também é possível se revoltar com as cenas em que as comunidades LGBT sofrem em campos de concentração. Qualquer coisa que você faça contra o sistema, será exposto e humilhado publicamente.

Você conseguiria viver com 100 palavras por dia?

[penci_blockquote style=”style-2″ align=”none” author=”Vox”] Vocês não fazem ideia, senhoritas. Absolutamente nenhuma ideia. Estamos a um passo de voltar à pré-história, meninas. Pensem nisso. Pensem onde vocês vão estar, onde suas filhas vão estar, quando os tribunais atrasarem os relógios. Pensem em expressões como “permissão do cônjuge” e “consentimento paterno”. Pensem em acordar um dia e descobrir que não têm voz em nada.[/penci_blockquote]

A autora mostra as consequências de não se envolver e não participar de discussões políticas. O que acontece quando ignoramos os sinais e deixamos determinados assuntos de lado. No entanto, muitas coisas ficaram em aberto e o romance que a autora criou não me convenceu.

Não darei spoilers, porém o que mais me decepcionou foi como os conflitos foram superados. Tudo acontecia no tempo certo, com muita precisão, e isso tornou a obra cansativa. Pessoas que surgiram e tiveram destaques na hora errada, a forma com que as próprias mulheres se enxergavam. Realmente, na metade do livro já tinha me esquecido do foco principal e fui obrigada a aceitar a conclusão.

Apesar de não compreender a comparação que estão fazendo com o Conto de Aia, Vox é uma leitura importante. Mesmo com as minhas ressalvas, sinto que todos deveriam dar uma chance. A autora levanta questões sérias para reflexão, como o extremismo e o conservadorismo podem ser uma arma contra os nossos direitos.

Posso não ter gostado do rumo que a história tomou, mas admito que fiquei angustiada só de pensar nessa possibilidade. Leia!