Tea time


Por que as mulheres não são incentivadas a ter hobbies?
e temos que nos afastar do que realmente gostamos?

Recentemente, uma das minhas melhores amigas voltou a criar conteúdo para o Instagram e decidiu falar sobre hobbies (ficou curiosa? Siga ela aqui: @magadaspaginas). O objetivo dela é compartilhar dicas sobre como ocupar a mente e o corpo com atividades que não necessariamente produzem algo vendável, mas que produzem presença, descanso e identidade. Eu achei essa ideia maravilhosa, porque é um assunto que sempre me pegou. Estou sempre em busca de aprender algo novo, de testar habilidades, de experimentar pequenas paixões.

Conversamos frequentemente sobre essa vontade de fazer vários hobbies ao mesmo tempo; de começar muitas coisas e nem sempre conseguir se dedicar exclusivamente a uma só. E foi em uma dessas conversa que comecei a puxar um fio antigo dentro de mim. Talvez essa dificuldade não seja falta de foco. Talvez seja falta de permissão.

Nós, mulheres, aprendemos muito cedo que precisamos amadurecer antes da hora. Largar as brincadeiras, falar de assuntos mais sérios, nos comportar como “mocinhas”. Eu nunca vou esquecer do dia em que estava brincando de boneca e ouvi de uma tia que já não tinha mais idade para aquilo. Tinha 10 anos e eu era uma criança. Enquanto isso, meninos mais velhos continuavam jogando videogame sem que ninguém questionasse se já tinham passado da idade.

E essa diferença não desaparece na vida adulta. Homens continuam tendo hobbies socialmente aceitos. Futebol, videogame, jogos online, cartas, campeonatos, coleções. Quantos homens adultos continuam jogando Pokémon e isso é visto como algo divertido, nostálgico, até saudável? Meu próprio marido gosta e eu acho maravilhoso que ele tenha algo que o desconecte do mundo e o leve para um lugar de prazer genuíno.

Porque nós precisamos disso. Precisamos de algo que nos tire da rotina, que funcione como descanso mental. O problema nunca foi o hobby masculino existir. O problema é o hobby feminino ser constantemente questionado.

Quando mulheres se mobilizam por um artista, são chamadas de exageradas. Quando vibram por um show, são vistas como histéricas. É curioso como tudo que movimenta mulheres emocionalmente costuma ser tratado como futilidade. Existe uma validação quase automática para o lazer masculino e uma desconfiança constante sobre o lazer feminino.

Talvez por isso tantas de nós cresçamos com dificuldade de sustentar um hobby. Porque, desde pequenas, aprendemos que gostar muito de algo pode ser motivo de julgamento. Que brincar demais é infantil. Que se dedicar a algo que não gera resultado prático é perda de tempo.

Quando eu era criança, meus pais fizeram o que estava ao alcance deles para me estimular. Minha mãe me colocou no balé, depois no teclado. Eu sou profundamente grata por isso. Mas, sendo honesta, eu queria karatê porque minha irmã fazia karatê. Eu queria violino e não teclado. Em muitos momentos, eu não fui ouvida nas minhas preferências. Não por falta de amor, mas porque nem sempre entendemos que hobby precisa nascer do desejo, não da conveniência.

E talvez seja ali que começamos a nos afastar do que realmente gostamos.

Hoje, aos 38 anos, eu tento alguns hobbies. O punch needle virou uma forma de acalmar a mente enquanto as mãos trabalham. Eu faço journals para organizar pensamentos que não cabem só na cabeça. Gosto de cozinhar com tempo, experimentar receitas sem a obrigação de acertar. Já estudei violino durante a pandemia e precisei parar quando descobri a gravidez. Ele continua pendurado na parede, silencioso, me lembrando que aquele desejo ainda existe.

E ele existe.

Ser mãe me fez revisitar tudo isso com mais consciência. Eu quero que a a minha filha tenha liberdade de escolher. Que ela possa começar e parar. Testar atividades físicas, mentais, artísticas. Que possa mudar de ideia. Cresça sabendo que não precise ser perfeita em nada.

Em um mundo que nos cobra produtividade o tempo inteiro, ter um hobby é quase um gesto político. É afirmar que nem tudo precisa gerar lucro, conteúdo ou validação externa. Algumas coisas podem simplesmente existir porque nos fazem bem.

Talvez o maior desafio para nós, mulheres, seja reaprender a nos dar permissão. Permissão para gostar intensamente. Eu ainda quero voltar para o violino. Quero continuar bordando, escrevendo, cozinhando, aprendendo. Não porque preciso provar algo, mas porque mereço existir além das minhas responsabilidades.

E talvez seja isso que eu esteja aprendendo agora: a gente nunca fica velha demais para ter um hobby. A gente só precisa parar de aceitar que nossos gostos sejam diminuídos.

newsletter receba novidades

Receba atualizações do blog por email

veja também

  • Spoiler: Eu sou millennial

    Tea time

    A nova relação com o trabalho e o que talvez a Geração Z esteja nos ensinando

    Por

  • O equilíbrio entre Criação de Conteúdo e Expressão Criativa

    um registro de agora

    Tea time

    Entre o que falta e o que continua…

    Por

  • Pequenas alegrias

    Sobre o que fica quando as palavras faltam

    Por

comentários

  • Luly Lage

    Isso que você disse sobre nossa falta de permissão faz TANTO sentido, tanto, tanto… Acho que a gente acaba querendo fazer tantas coisas ao mesmo tempo porque temos medo que a qualquer momento essas coisas sejam tiradas da gente, que nos proíbam de tentar de novo, e isso torna difícil até desistir ou até não ser muito “boa” naquilo também… Poxa, demorei tanto pra conquistar esse direito, vou abrir mão dele? Mas já? Poxa, consegui esse direito, como assim não sou incrível nisso? Por que?
    No fim, a gente só precisa poder…

    responder
  • Adriele

    Nossa que texto bom de ler, eu brinquei de boneca até os 18 anos e por um tempo tinha ate vergonha de dizer isso por causa dos julgamentos alheios, e descontinuo várias outras atividades que amo. Nunca tinha parado para pensar nessa ‘permissão’ mas essa reflexão faz todo sentido.

    responder
    • Clayci Oliveira

      A gente ter que abrir mão de gostos, por conta dos julgamentos é cruel demais, ne?
      eu sempre amei bonecas hahahahaha aquelas moranguinhos

      responder
ir ao topo

Buscar no site