ATENÇÃO: Esse conteúdo foi escrito as 23:59 depois de um dia extremamente cansativo e corrido. A autora é millenial e fez esse desabafo para jovens senhoras.
Eu cresci ouvindo a famosa frase: “É só você querer que consegue“. Só bastava me esforçar. Que estudar, trabalhar duro, ser responsável e dedicada eram praticamente um manual infalível para conquistar estabilidade, reconhecimento e, em algum momento, aquela sensação de “agora eu consegui”. Eu sou millennial e pertenço à geração que acreditou fielmente nessa promessa. A gente realmente achava que o esforço era uma espécie de chave mestra que abriria todas as portas.

Eu fiz exatamente o que a cartilha pedia. Estudei, trabalhei, aceitei desafios, aguentei pressões que hoje talvez eu questionasse mais. Sempre com aquela ideia de que fazia parte do processo, que era só uma fase antes da recompensa maior. Mas esqueceram de avisar o processo o quanto eu estava confiando nele. O tempo passou e percebi que muitas das promessas não vinham com garantia vitalícia. A estabilidade não era tão estável assim. O crescimento não era tão linear. E aquela sensação de conquista definitiva parecia sempre estar um passo à frente.
Hoje, aos 38 anos, estou fora do mercado de trabalho por decisão minha. Eu escolhi priorizar a maternidade por um período, mesmo sabendo exatamente o que isso significa. Sei que ficar afastada pode dificultar uma futura recolocação. Também sei que o mercado não costuma ser muito paciente com mães. Sei que a idade começa a ser um fator analisado com lupa. Mas, ainda assim, essa foi uma escolha consciente. Não foi falta de ambição.
E é curioso porque, enquanto eu revisava minhas próprias crenças sobre carreira, comecei a olhar com outros olhos para a Geração Z. Aquela geração que muita gente adora criticar porque não aceita qualquer coisa, porque pede demissão com mais facilidade, não se apega a empregos que não fazem sentido. Confesso que, às vezes, eu olho e penso, meio rindo: onde vocês estavam quando eu precisava dessa coragem?
Porque eu jamais teria pedido demissão com essa segurança toda. Na minha cabeça, sair de um emprego era quase uma derrota pessoal. A gente aprendia a aguentar, a persistir, a mostrar serviço. Vestir a camisa era quase uma prova de caráter. E, de certa forma, isso também moldou nossa força. Mas talvez tenha moldado também o nosso cansaço.
O mundo mudou muito rápido e talvez eles tenham percebido isso antes. O mercado já não oferece as mesmas promessas de estabilidade, o custo de vida aumentou, a competição é outra. Então faz sentido que a relação com o trabalho também mude.
Talvez a Geração Z simplesmente tenha entendido que trabalho é parte da vida, não a definição inteira dela.

Eu já fui muito ambiciosa no sentido clássico da palavra. Queria subir cargos, ganhar mais, mudar de área. E não há nada de errado nisso. Contudo, hoje minha ambição tem outro formato. Eu ainda quero estabilidade, claro. Quero pagar minhas contas, oferecer segurança para minha filha, ter tranquilidade. Mas não quero mais pagar qualquer preço por isso. Se for para escolher, prefiro um trabalho mais leve, mesmo que pague menos, do que um cargo que consuma minha saúde mental.
Talvez a grande diferença entre gerações esteja na ordem das prioridades. A nossa aprendeu que primeiro vem a estabilidade e, se sobrar energia, você pensa em propósito. A geração mais jovem parece querer sentido desde o começo, mesmo que isso implique mudanças mais frequentes e menos permanência. Eles incomodam porque questionam algo que a gente aceitou por muito tempo sem discutir.
Eu não romantizo a despreocupação com o trabalho, assim como não romantizo o esgotamento crônico. O que me interessa é o equilíbrio. É poder trabalhar com responsabilidade sem transformar isso na única régua de valor pessoal. Admitir que sucesso não precisa ser medido apenas por salário, cargo ou patrimônio acumulado, sabe? Querer ficar em casa assando um bolinho também uma ambição hahaha.
Hoje, quando olho para minha trajetória, não vejo fracasso por não ter seguido exatamente o roteiro que me venderam. Enxergo amadurecimento. Vejo uma mulher que entendeu que ambição também pode significar paz, tempo e presença. Vejo alguém que aprendeu que trabalhar muito não é sinônimo automático de viver bem.
E, se eu puder aprender alguma coisa com a geração que veio depois de mim, talvez seja justamente essa coragem de ajustar a rota sem sentir que está traindo a própria história. Porque, no fim das contas, nenhuma geração tem todas as respostas. A gente está só tentando fazer o melhor possível com o mundo que encontrou.



Luísa Eulália
Hoje com meus 34 anos nas costas tenho percebido também que certas ambições não valem a minha saúde física e mental, principalmente no trabalho. Logo quando entrei na empresa que trabalho atualmente, eu ficava fazendo várias horas extras almejando esse crescimento, porém percebi que isso prejudicava a minha saúde e o meu tempo com amigos/família, e que meu trabalho deveria ser um complemento para minha vida e não ela toda. É preciso coragem para abrir mão de certas crenças, entender o que é prioridade na nossa vida e saber dizer alguns “nãos” pelo caminho. Amei seu blog!
Clayci Oliveira
Oiii!
Isso de colocar o trabalho no lugar de “parte da vida” e não tudo muda muita coisa. Mas exige coragem mesmo, principalmente pra ir contra algumas ideias que a gente aprendeu por muito tempo.
E esses “nãos” no caminho fazem toda diferença.
Obrigada por compartilhar isso comigo fico feliz que o blog tenha chegado até você