Pequenas alegrias


Sobre o que fica quando as palavras faltam

Oi, Cora,

Hoje é Natal.
E hoje eu vi a minha avó (a sua bisavó).

Ela já não conversa mais. Não chama a gente pelo nome, não faz perguntas, não conta histórias. Mas hoje, quando eu cheguei perto, ela sorriu. Um sorriso tão verdadeiro que eu soube, de um jeito que não cabe em explicação, que ela me reconheceu. Ela apertou minhas mãos com a força que ainda tem e mexeu a boca tentando falar comigo, como quem não quer deixar o diálogo acabar.

E eu entendi tudo.

A bisa e o biso no seu aniversário de um ano

Quero que você saiba disso porque esse momento me atravessa. Eu sempre fui uma pessoa de memória, mesmo esquecendo muita coisa da minha infância. Mas com ela é diferente. A forma como eu sempre fui recebida. O jeito como ela sempre me faz sentir em casa. Aliás, ela sempre foi minha casa. Os cheiros da casa dela vão sempre morar em mim: a comida feita sem pressa, os móveis antigos, as plantas espalhadas pelos cantos, a coleção de perfumes e hidratantes.

Ela ama plantas. Sempre amou. E eu gosto de compartilhar esse interesse com ela, porque se eu conheço o nome de cada uma, para que serve, do que cuida, o que cura, é por causa dela. Hoje, quando eu te vejo regando as flores do jardim, eu entendo que nada disso se perde. O cuidado passa. O gesto passa. O amor também.

Se eu escrevo isso agora, é porque faço de tudo para que você viva isso também. Que você tenha casas assim. Pessoas que sejam casa. Cheiros que confortam. Presenças que acolhem sem pedir nada em troca.

Talvez um dia eu te conte tudo isso com mais calma. Talvez você apenas sinta. Porque algumas coisas não precisam ser explicadas, elas continuam vivas no jeito como a gente cuida do mundo.

Hoje, a sua bisavó sorriu pra mim,
e eu nunca fiquei tão feliz em poder sorrir de volta.

Essa foto foi feita no dia 28/10/23 – quase um mês antes de você nascer

Com amor,
mamãe.

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comentários

  • Fernanda Rodrigues

    Oi, Clayci!
    O amor é algo tão potente que ele transborda de jeitos que a gente nem espera, né?
    Eu fico com o coração apertado pela falta de memória da bisa (já passamos por isso aqui na minha família também), mas sei que a Cora tem acesso ao amor dela por você. <3
    Post lindo demais!
    Feliz 2026 pra você e pra toda a sua família.
    Um beijo,

    responder
    • Clayci Oliveira

      Oi, Fê!
      É exatamente isso… o amor encontra jeitos de continuar, mesmo quando a memória falha. Obrigada por dividir isso comigo, saber que vocês já passaram por algo parecido deixa tudo um pouco menos solitário. A Cora estar cercada desse amor é o que mais importa pra mim.
      Obrigada pelo carinho. Feliz 2026 pra vocês também. Um beijo.

      responder
  • Luly Lage

    Amiga, eu sei que a carta foi pra Cora, mas eu me intrometi e li, e me emocionei, e até chorei! E vou complementar com um bilhetinho também:

    Cora, sua bisavó, mesmo sem falar, com certeza sente um mundo de coisas boas por você! É muito bom saber que vocês se conhecem e têm a chance de estar registradas lado a lado… Parabéns pela sua família linda, garotinha!

    responder
    • Clayci Oliveira

      Amiga
      Fico muito tocada de saber que você leu com esse cuidado. A carta é pra Cora, mas acho que essas palavras acabam encontrando quem precisa também. Obrigada pelo bilhetinho pra ela é bonito demais pensar nesse vínculo que existe mesmo no silêncio. Obrigada pelo carinho e pela leitura tão generosa.

      responder
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