Sempre tive o hábito de escrever sobre o que atravessa os meus dias, não como resposta nem como aprendizado pronto, mas como memória. Esse blog existe há mais de doze anos e, às vezes, volto a textos antigos para lembrar quem eu era, o que me doía, como atravessei certos períodos, porque escrever sempre foi a forma mais honesta que encontrei de organizar os pensamentos.
Faz menos de uma semana que perdi a minha avó e tudo ainda é muito recente, muito cru. O luto tem aparecido de maneira inesperada, no meio da rotina, em lembranças simples, em cenas comuns do dia, e quase sempre termina em choro. Ainda estou tentando entender em que fase desse processo eu estou; se existe mesmo uma fase identificável. Não sei se estou em negação ou apenas exausta de sentir tanto. Pensar nela dói, mas também traz conforto. Há dias em que as lembranças acalmam e outros em que desmontam tudo de novo, sem aviso.
Quando a gente está de luto, o corpo pede pausa, silêncio, um tempo só nosso para absorver o que aconteceu. Para chorar sem pressa, lembrar, sentir, existir dentro daquela dor. Cada pessoa encontra uma forma própria de lidar com a morte e todas elas são válidas, porque estamos falando de alguém que se foi e que a gente ama. Algumas pessoas se afastam, outras tentam lidar com mais leveza, algumas racionalizam, outras simplesmente desmoronam.
Mas quando você é mãe de uma criança de dois anos, essa pausa quase nunca acontece. O luto precisa esperar enquanto a comida é preparada, enquanto o prato esfria, enquanto o banho acontece e a rotina continua girando. Ele só encontra espaço nos intervalos, quando ela dorme, quando está entretida, quando consigo sair de casa com a desculpa de comprar alguma coisa, mas, na verdade, só quero ficar sozinha por alguns minutos.
Eu não tenho dificuldade em chorar na frente da minha filha. Desde cedo, tento ensinar que vulnerabilidade faz parte do ser humano e que sentir não é motivo de vergonha. Ainda assim, a gente tenta segurar, organizar o choro, empurrar a dor para depois, como se fosse possível escolher a hora certa de sentir. Ontem, porém, eu não consegui. A saudade da minha avó veio de um jeito que não deu para conter e ninguém prepara a gente para esse tipo de momento.
A gente pesquisa tanto antes de ser mãe, como responder perguntas difíceis, como explicar o mundo, porém nenhuma pesquisa ensina como explicar a morte enquanto você mesma ainda está tentando entendê-la. Como traduzir algo tão complexo para uma criança de dois anos? Ela percebeu meu choro e perguntou por que eu estava triste. Respirei fundo, perguntei se ela gostava das vovós dela, e quando ela disse que sim, expliquei do jeito que deu (do jeito possível naquele momento) que a mamãe também tinha uma vovó e que essa vovó tinha virado uma estrelinha.
Talvez não tenha sido a explicação perfeita ou a mais didática, mas foi a que coube naquele instante. Sentadas na cama, ela olhou pela janela e perguntou se a vovó estava no céu. Eu disse que sim e ela completou, perguntando se era lá no alto. Em seguida, esticou a mãozinha para o nada, como quem alcança o impossível, e disse que tinha conseguido pegar a estrelinha – UFA! PEGUEI MAMÃE- , que tinha pegado a vovó, e me entregou aquilo com a naturalidade que só uma criança tem. Eu só soube chorar.
Chorei pela minha avó, pela inocência dela, pela beleza daquele gesto e agradeci, em silêncio, por ter aquela criança na minha vida. No início, eu pensei em como é difícil viver o luto ao lado de uma criança tão pequena e isso continua sendo verdade, porque não existe silêncio absoluto. Mas, ao mesmo tempo existe algo inesperadamente bonito nisso tudo. Crianças mostram uma força que a gente esquece que existe, lembram que o mundo continua, que o amor encontra outras formas de existir, que o céu pode caber na palma da mão e que, mesmo em meio à dor, ainda existem gestos simples de cuidado, presença e afeto.
Talvez não exista um jeito certo de viver o luto. Existe só o jeito possível. E, agora, esse é o meu.




Luly Lage
Sinto muito pela perda da sua vovó, Clay… De verdade! Espero que você consiga viver o luto com leveza, dentro do possível, e que seja possível durar o tempo que precisar!
Clayci Oliveira
Obrigada pelo carinho amiga. De verdade. Tenho tentado viver esse tempo do jeito que dá, um dia de cada vez, respeitando o ritmo das coisas.
Inês
Lamento muito a sua perda :/
Que texto bonito
Clayci Oliveira
Muito obrigada pelas palavras