Se eu disser que ser mãe era um sonho, estarei mentindo.
Eu nunca me imaginei sendo mãe e nem mesmo vivendo uma preparação para a maternidade, pois passei boa parte da minha vida ouvindo que teria dificuldades para engravidar e que precisaria fazer um tratamento caso fosse o meu desejo. Não sei como explicar isso, mas escutar algo assim com frequência, fez com que eu parasse de imaginar essa possibilidade. Eu só fui aceitando mesmo
Porém, a maternidade nunca foi uma coisa completamente distante para mim. Tenho vários sobrinhos e tive.o privilégio de acompanhar a gravidez das minhas irmãs. Eu vi cada uma passar por uma experiência diferente, acompanhei barriga crescendo, consultas, nascimento, bebê pequeno, noites maldormidas e todas aquelas histórias que vão surgindo quando alguém próximo tem um filho.
Eu achava que isso me daria alguma noção do que era ser mãe. Hoje eu dou risada disso.

Uma coisa é acompanhar a gravidez da sua irmã. Outra é olhar para um teste de farmácia e perceber que aqueles dois risquinhos estão ali para você. E foi exatamente assim que aconteceu comigo.
Faltavam poucos dias para eu completar 35 anos quando fiz um teste de gravidez. Foi mais por desencargo de consciência, porque sinceramente falando eu achava que daria negativo. Não deu nem tempo me vestir direito depois do teste, o resultado apareceu quase imediatamente. POSITIVO!
Sabe aqueles vídeos onde mostra a pessoa revelando a gravidez? Não tive nem chance de pensar em algo assim. Pois foi tão inesperado que liguei pro Di assim que cheguei em casa. E apesar de receber a notícia assim, de repente, a reação dele foi a melhor. Eu via ele rindo no meio do nervosismo e dizendo: se é pra ser nosso, será!
Acho que foi naquele momento que começaram as perguntas: “e agora?”, “o que eu faço?”, “o que eu preciso saber?”, “Será que eu vou conseguir?”
O que eu gostaria de ter entendido antes de engravidar
Hoje, se você me perguntasse o que eu acho importante saber antes de engravidar, eu não começaria pelo enxoval, pelo carrinho ou pela lista de coisas que você precisa comprar. Eu começaria pela sua saúde.
E não estou falando isso pensando naquela ideia de que a mulher precisa estar com a vida impecável antes de ter um filho. Acho essa cobrança péssima, inclusive.
Mas, se existe a possibilidade de uma gravidez, acho importante conhecer o próprio corpo e conversar com um profissional de saúde sobre o seu histórico. Fazer acompanhamento, verificar exames, conversar sobre medicamentos, vacinas e qualquer questão que já faça parte da sua vida. E também colocaria saúde emocional nessa mesma conversa.

Eu sinto (e vejo) que a preparação para a gravidez é muito focada no corpo. A gente fala de exame, vitamina, alimentação, atividade física, peso, pressão, e tudo isso é importante, tá? Mas durante a minha gestação ninguém me perguntou como eu estava me sentindo.
Eu não acredito que exista uma mulher que esteja completamente pronta para todas as mudanças que uma gravidez pode trazer. Contudo, acho que seria muito bom se a gente falasse mais sobre acompanhar também aquilo que acontece dentro da nossa cabeça.
Depois que o bebê nasce você vai precisar de uma pessoa que, muitas vezes, passa despercebida nessa história toda: você.
Da mesma forma que eu também gostaria de ter entendido que gravidez não é uma experiência igual para todo mundo. Tem gente que ama estar grávida e também quem simplesmente quer que acabe (esse foi o meu caso).
Você pode estar muito feliz e muito cansada. Pode olhar para a barriga e pensar que aquilo é a coisa mais incrível do mundo e, algumas horas depois, estar completamente desconfortável Uma coisa não anula a outra.
Eu teria gostado de saber disso porque acho que existe uma expectativa de que, depois de descobrir a gravidez, você deveria entrar automaticamente em um estado de felicidade permanente.
Também teria sido bom alguém me contar que o parto não é o fim da história. Durante a gravidez tudo gira em torno dele. Você pensa onde vai ser, como vai ser, o que precisa levar, o que pode acontecer, como vai se preparar.
Só que depois vem o bebê. E vem você também, tentando entender o que aconteceu com o seu corpo, tentando dormir, alimentar uma pessoa que depende de você para tudo e tentando descobrir como aquela nova rotina vai funcionar.
Eu também não sabia que amamentação poderia ser tão complicada
Essa é uma parte da minha história que eu não consigo deixar de fora quando penso no que gostaria de ter aprendido. A experiência de amamentar é muito individual! Tem mulheres que não sente nenhuma dificuldade, mas o meu caso foi carregado de expectativa, culpa, frustração e tentativas.
Acho que eu teria gostado de encontrar mais relatos de mulheres dizendo: “Pode ser que não aconteça como você imaginou”. Mas, sem transformar isso em uma disputa. Só deixando claro que existem muitas histórias possíveis.
Hoje, se uma mulher me conta que está com dificuldades para amamentar, a primeira coisa que eu penso é que ela provavelmente já está se cobrando o suficiente. Ela não precisa de mais uma pessoa dizendo que deveria tentar mais. Ela precisa de informação, apoio e espaço para entender o que está acontecendo com o próprio corpo.
Você vai ouvir opinião sobre tudo
Quando você engravida, aparentemente todo mundo recebe uma licença para opinar: Sobre o parto, o que e quanto você come, o tamanho da sua barriga, amamentação. Depois vêm as opiniões sobre alimentação, sono, escola, creche, brinquedo, tela, desfralde. E quando você acha que acabou, alguém pergunta quando vem o segundo.
Eu queria ter aprendido a devolver o desconforto assim que engravidei
Rede de apoio deveria incluir a mãe
Quando a gente fala em rede de apoio, quase sempre pensa em quem vai ajudar com o bebê. Mas quem vai ajudar você? Quem vai fazer a comida nos seus primeiros dias em casa? Ou vai ouvir você reclamar sem tentar imediatamente explicar por que você deveria se sentir feliz? Quem você pode chamar quando estiver exausta?
Hoje eu acho que essas perguntas deveriam fazer parte da preparação para a maternidade.. Não adianta pensar apenas em quem vai cuidar do bebê se ninguém está pensando em quem vai cuidar da mulher que acabou de passar por uma gravidez e vive o pós parto.
E talvez eu não soubesse que sentiria falta de mim
Essa foi uma das partes mais difíceis de entender. A maternidade muda muita coisa que parece pequena quando você olha de fora.
Seu horário, sono, corpo, trabalho, relacionamento, amizades, tempo livre e até mesmo os seus interesses. E por algum tempo você pode olhar para tudo isso e sentir falta de algumas coisas que existiam antes.
Eu acho importante falar isso porque existe uma culpa muito grande em admitir saudade da vida anterior. Você pode amar seu filho e sentir falta de dormir até mais tarde.
Pode estar feliz com sua família e sentir saudade de uma versão sua que tinha mais tempo para ler, trabalhar, sair, viajar ou simplesmente ficar quieta. Uma coisa não apaga a outra.
Algumas coisas que eu gostaria de ter escutado durante a gravidez
Você não precisa estar feliz o tempo inteiro.
Não compare a sua gravidez com a de outra mulher.
Pode perguntar quando não souber.
Você não precisa aceitar todo conselho que receber.
Procure ajuda antes de chegar ao limite.
Se alguma coisa sair diferente do que você imaginou, isso não significa que você fez tudo errado.
Você continua sendo uma pessoa além de ser mãe.
Seu bebê não precisa de uma mãe perfeita.
E, se em algum momento você olhar para tudo isso e pensar “eu não sei o que estou fazendo”, provavelmente vai descobrir que muitas outras mães também pensaram exatamente a mesma coisa.
Eu passei anos achando que talvez nunca fosse viver a maternidade. Quando Cora apareceu naquele teste de farmácia, eu nem consegui acreditar no resultado.
Hoje, quase três anos depois, ainda acho curioso lembrar daquela mulher comprando vários testes porque não conseguia aceitar que o primeiro deu positivo.
Ela não fazia ideia do que estava começando… Eu também não.
Isso é uma parte da preparação para a maternidade que eu gostaria de ter recebido



