Maternidade


Acho que ninguém me preparou para a quantidade de emoções que cabem em uma criança de 2 anos

Esses dias a Cora perguntou se eu estava sentindo alguma dor. Respondi que era nas costas e ela foi correndo buscar a maletinha de médica para me examinar. Depois me abraçou e disse que ia passar logo. Como que a gente fica ouvindo isso? Eu queria apertar, beijar, agradecer pelo cuidado. Porém, pouco tempo depois, estávamos tentando resolver outra situação muito importante: uma maçã cortada que deveria ter sido servida inteira. E eu ali precisando lidar com uma decepção que jamais imaginei causar ao oferecer um lanche.

Eu achava que esse negócio de terrible two fosse exagero. Fui aquela que pensava: “filha minha não vai fazer birra”. Tinha umas certezas interessantes antes de chegar até aqui, sabe? Eu sabia que nessa idade eles estão aprendendo a lidar com as emoções, mas achei que seria mais fácil conviver com alguém que sabe dizer não quando quer. Hoje recebo vários desses nãos enquanto tento convencê-la a entrar no banho e lembro que não tenho controle de nada.

A Cora é muito sensível e vive tudo com intensidade. Se frustra com facilidade, chora bastante e nem sempre consigo entender o que aconteceu. Dou importância ao que ela demonstra, mesmo sem saber direito como ajudá-la, porque uma coisa aparentemente boba para mim pode ter um peso enorme para ela. Só que eu também sou irritada e preciso me policiar para não reagir no impulso. Nessas horas, tento lembrar de como me sinto quando estou brava, do quanto me incomoda alguém diminuindo meus sentimentos ou exigindo que eu me acalme. Isso me ajuda a ter mais cuidado, dar espaço e esperar uma oportunidade de me aproximar e oferecer colo. Tem dias que funciona, em outros seguimos tentando…

O cansaço também pesa bastante. Desde que nasceu, ela tem despertares noturnos… então continuo sem uma noite completa de sono. Entre oferecer comida, correr atrás, negociar uma soneca e lidar com alguma crise, às vezes chego ao fim do dia sem ter conseguido parar. Por isso, agora que os 3 anos estão chegando, não sei dizer se vou sentir falta dessa fase inteira. Algumas experiências têm sido um pouco traumáticas para mim e seria bom poder falar disso sem parecer que estou deixando de reconhecer as partes boas. Quero dormir, ter mais segurança para ajudá-la e conseguir passar por uma frustração sem que nós duas fiquemos tão esgotadas.

Mas basta uma conversa tranquila para eu já sentir saudade do que ainda estou vivendo. Quando relaxa, a Cora compartilha tudo o que passa pela cabecinha dela, sem filtro, com aquela inocência que dá vontade de ficar ouvindo por horas. Questiona, pede explicações, presta atenção no que você diz. Às vezes me surpreendo com o rumo do assunto, porque não esperava conversar sobre aquilo com uma criança de 2 anos. Adoro as palavras que saem erradas, a entonação para mostrar que entende determinado assunto, o orgulho de anunciar uma descoberta. Queria registrar mais, mas geralmente estou envolvida demais na conversa para lembrar do celular.

Quando se empolga, o corpo inteiro participa. Ela pula, inventa música, abre um sorriso enorme. O olhar de surpresa ao ganhar algo que queria muito é uma das minhas coisas favoritas, assim como a vontade de dividir comigo cada novidade. Conviver com ela é ir conhecendo seus interesses, o humor, as opiniões, e talvez por isso me entristeça perceber que algumas pessoas enxergam apenas o choro e a dificuldade. Ficam sem conhecer a menina que busca a maletinha para cuidar de mim, que tem tantas perguntas e tanto carinho para oferecer. Penso no quanto elas estão perdendo.

Outro dia ouvi “eu vou ser pequenininha sempre” e quase chorei. Como pode? Eu aqui, torcendo para certas coisas passarem, enquanto desejo guardar outras exatamente como estão. O jeito de pedir colo quando precisa descansar, a voz dizendo “eu gosto muito de você”, as expressões que mudam conforme vai contando alguma coisa. Sei que vou esquecer detalhes, e acho que essa é a parte mais dolorida na maternidade. Hoje tudo faz parte da nossa rotina, mas daqui a um tempo vou tentar lembrar como pronunciava uma palavra e talvez não consiga. E só de escrever isso me dá um aperto.

No fim do dia, depois de tanto correr, insistir, acolher e perder a paciência também, olho como ela está dormindo. Aquele semblante sereno, o corpo relaxado, segura para descansar depois de sentir tanta coisa. Acabo ficando mais um pouquinho, lembro de alguma gracinha e penso: não é que vale a pena? Agradeço a Deus pelo privilégio de ser mãe dela, com toda a bagunça que ainda estou aprendendo a administrar. E torço para conseguir algumas horas seguidas de sono, porque amanhã provavelmente tem mais. Só espero acertar o formato da maçã.

veja também

  • Cantinho de leitura infantil: como criei um espaço para minha filha

    usando coisas que ja tinha em casa

    Maternidade

    Cantinho de leitura infantil: como criei um espaço para minha filha

    Por •

  • Descobrindo a maternidade e lidando com emoções conflitantes

    Maternidade

    O que saber antes de engravidar: preparação para a maternidade

    Por •

  • os últimos dias por aqui

    life lately

    life lately #2

    Por •

comentários

ir ao topo

Buscar no site