Até que ponto a nossa identidade depende da memória que os outros têm de nós?
Essa pergunta ficou martelando na minha cabeça depois que terminei Nós Já Moramos Aqui, de Marcus Kliewer. E olha que eu já tinha bastante coisa para pensar enquanto estava lendo, hein?!
Antes de começar a falar sobre o livro, fui olhar quando tinha sido a última vez que escrevi uma resenha aqui no blog e descobri que fazia tempo. Apesar de ter parado de compartilhar minhas leituras por aqui, eu continuo lendo e também estou participando de um clube de leitura. Então achei que Nós Já Moramos Aqui seria uma boa maneira de voltar a falar sobre livros (principalmente porque foi o livro que escolhi para o mês de setembro).
E preciso começar dizendo que fazia tempo que uma leitura não me prendia tanto.
Eu dormia pensando no livro, lembrava de algumas cenas durante o dia, criava teorias e até tive vontade de voltar algumas páginas para conferir se realmente tinha entendido o que tinha acabado de ler. E acho até engraçado ter ficado tão obcecada pela história, pois a própria narrativa trabalha com essa sensação de algo que começa a ocupar espaço demais na sua cabeça.

Sobre o que é Nós Já Moramos Aqui?
Eve e Charlie compram uma casa antiga com a intenção de reformá-la e depois vendê-la. A propriedade fica em uma região mais isolada, cercada por árvores e com uma única estrada para entrar e sair. Tem porão, sótão e toda aquela atmosfera que você sente que não deve colocar os pés lá dentro.
Até que uma família aparece na porta. O homem diz que morou naquela casa quando era criança e gostaria de entrar por alguns minutos para mostrar o lugar aos filhos. Quinze minutos, no máximo, e eles vão embora.
Eu provavelmente diria que não. Eve diz que sim.
Só que, a partir do momento em que essa família entra na casa, as coisas começam a ficar cada vez mais estranhas. Pequenas situações começam a não fazer sentido, Eve passa a perceber coisas que não consegue explicar e aquela visita de quinze minutos começa a se transformar em algo muito maior.
O interessante é que Nós Já Moramos Aqui não depende apenas de sustos. O terror do livro está muito mais na dúvida e na sensação de não saber exatamente em quem ou no que acreditar. “Você viu aquilo mesmo?” “Aquilo estava ali antes?” “Você realmente se lembra daquela conversa?”
A Eve me irritou antes de eu começar a entendê-la
Confesso que comecei com raiva da Eve. Ela percebe que aquela situação é estranha, fica desconfortável, nota que algumas coisas não parecem certas e ainda assim demora para tomar uma atitude mais firme. Eu estava do lado de cá da página pensando: Eve, pelo amor de Deus, manda essas pessoas embora.
Só que, conforme a história avançou, comecei a me simpatizar e até a entender algumas das decisões que inicialmente estavam me irritando. Eve é uma pessoa que tenta evitar conflitos, que questiona a própria reação e que muitas vezes parece preferir acreditar que está exagerando antes de admitir que alguma coisa realmente está errada.
E isso começa a fazer muito sentido quando o livro passa a brincar com a percepção dela.
O livro me fez criar teorias o tempo inteiro
Essa talvez seja a parte mais interessante da minha experiência com Nós Já Moramos Aqui: fazia tempo que uma leitura não me prendia tanto. Eu dormia pensando no livro, lembrava de algumas cenas durante o dia, criava teorias e tentava juntar informações. PRA QUÊ? NÃO SEIIII… Em alguns momentos, tive vontade de voltar algumas páginas para conferir se realmente tinha entendido o que tinha acabado de ler.

E eu não vou mentir: gosto muito quando um livro provoca esse sentimento.
Gosto dessa sensação de desconfiar de todo mundo, prestar atenção nos detalhes e tentar descobrir antes do personagem o que está acontecendo. Eu sempre erro, mas gosto!
Quando cheguei aos 90%, comecei a entrar em desespero
No começo, eu estava curiosa com as perguntas. Depois comecei a criar expectativas para as respostas e quando cheguei perto do final, percebi que ainda tinha muita coisa que queria entender. Aos 90%, comecei a pensar: como esse livro vai explicar tudo isso em tão poucas páginas?.
O problema é que eu não queria necessariamente uma explicação para absolutamente tudo. Eu estava gostando da sensação de dúvida.bO que começou a me incomodar foi perceber que algumas dessas perguntas talvez não tivessem uma resposta. Acho importante explicar isso porque, quando falo que o final de Nós Já Moramos Aqui não me satisfez, não significa que eu não gostei da leitura.
O problema foi outro; Eu senti que algumas coisas importantes ficaram pelo caminho. Durante a leitura, o autor apresenta personagens, situações e informações que parecem ter alguma importância para o desenvolvimento do enredo. Só que algumas dessas coisas simplesmente não recebem uma explicação que me parecesse suficiente. E isso me deixou frustrada.
Nós Já Moramos Aqui é assustador?
Para mim, sim! O terror funciona porque ele mistura o estranho com coisas que poderiam acontecer na vida real. A dúvida sobre a própria memória, aquela sensação de não reconhecer alguém, a possibilidade de estar interpretando uma situação de maneira errada e a dificuldade de confiar na própria percepção são coisas que tornam a história muito mais desconfortável.
Minha nota para Nós Já Moramos Aqui ficou em 3 estrelas.
E acho que essa nota resume bem a minha experiência. Eu gostei muito da forma como o livro me prendeu, gostei da atmosfera, gostei de criar teorias, de voltar algumas páginas para tentar entender e ver se tinha deixado alguma coisa passar. Mas também fiquei frustrada com a quantidade de coisas que foram jogadas na história e não tiveram uma explicação satisfatória.
Se você gosta de suspense psicológico, terror, casas estranhas, personagens que começam a questionar a própria percepção e histórias que fazem você criar teorias enquanto lê, acho que Nós Já Moramos Aqui pode ser uma experiência bem interessante, sim!
Só iria com expectativas alinhadas sobre o final. Se você gosta de terminar um livro e sentir que todas as peças foram devidamente encaixadas, talvez algumas escolhas de Marcus Kliewer incomodem.
Agora quero saber de você: se você já leu Nós Já Moramos Aqui, conseguiu entender o final? Porque eu ainda tenho algumas perguntas e aceito teorias nos comentários.
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Marcus Kliewer
- Autoria:
- Marcus Kliewer
- Editora:
- Intrínseca
- Páginas:
- 320


