Ler um livro sobre guerra, regimes brutais e pessoas convencidas de que estão do lado certo justo em ano de eleição no Brasil talvez não tenha sido a decisão mais tranquila que eu já tomei. Se você lê para fugir da realidade, fica o aviso: esse não é o livro. Mas aqui estou eu, tentando colocar em palavras o que senti lendo Alchemised.
E já adianto uma coisa: virou uma das minhas leituras favoritas. O que é curioso, porque eu quase desisti dele.
Estou numa fase de evitar calhamaços, e encarar quase mil páginas parecia um compromisso grande demais. Só que comecei a ver resenhas incríveis de criadores que acompanho e fiquei curiosa. Também descobri que Alchemised nasceu de Manacled, uma fanfic de Harry Potter centrada em Draco Malfoy e Hermione Granger. Confissão: nunca consegui enxergar os dois como casal, apesar de sempre ter gostado do Draco. Então eu queria muito entender o que essa história tinha para mexer tanto com as pessoas.
Sobre o que é Alchemised
Alchemised é uma fantasia sombria ambientada num mundo devastado pela guerra, onde alquimia, necromancia e a manipulação da vida e da morte fazem parte de uma disputa pelo poder. A protagonista é Helena Marino, que fazia parte da Ordem da Chama Eterna e, depois da derrota do seu grupo, vira prisioneira de um regime brutal.
Helena perdeu parte das memórias e é justamente isso que a torna valiosa para quem acredita que ela esconde informações sobre a resistência. A situação piora quando ela é colocada sob o controle de Kaine Ferron, um homem ligado às atrocidades do novo regime.
A partir daí, SenLinYu mistura fantasia, guerra, trauma, memória e relações bem complicadas. E vale dizer: apesar de o livro ser vendido como romantasia, o romance está longe de ser a única coisa que sustenta a história. Quem começar esperando uma história de amor convencional pode se frustrar.
O mundo que a autora cria é cruel e perturbador. A guerra não está ali só como cenário para aproximar os protagonistas. Ela pesa nas escolhas, nas relações e no jeito como cada personagem decide o que é certo ou errado.
A alquimia como base de um mundo em guerra
Uma das coisas que mais me impressionaram foi o universo que SenLinYu construiu. Sabendo que a história veio de uma fanfic, eu estava curiosa para ver como ela ia transformar aquela inspiração em algo que funcionasse sozinho. E a alquimia foi uma escolha muito inteligente.
Ela não é só um poder que os personagens usam. Está ligada ao funcionamento daquele mundo, às disputas de poder, aos experimentos e ao jeito como a vida humana passa a ser tratada como recurso. A autora explora a transformação de matéria e de corpos, a manipulação da morte e os limites do conhecimento, tudo combinando com a atmosfera sombria do livro.
No começo, confesso, precisei de um tempo para absorver tanta informação. São muitos conceitos, regras e relações de poder, e o mundo já passou por muita coisa antes de a história começar. E talvez o mais desconfortável seja perceber que, no meio da guerra, os personagens quase sempre justificam o que fazem acreditando que estão fazendo o necessário.
Helena me conquistou de cara. Kaine, nem tanto

Helena me cativou desde as primeiras páginas. Mesmo quando a leitura estava travando, eu queria saber o que tinha acontecido com ela, que memórias tinha perdido e como tinha ido parar ali.
Ela tem uma vulnerabilidade enorme, mas também uma resistência que vai aparecendo conforme a gente conhece a história dela. Gostei muito de acompanhar essas camadas, porque Helena está longe de ser definida só pelo sofrimento.
Com Kaine, foi outra história.
Tem uma crueldade nas atitudes dele que me incomodou bastante, e por boa parte do livro eu não conseguia enxergá-lo de outro jeito. E aí veio uma das maiores contradições dessa leitura: eu me apaixonei por um personagem que, racionalmente, eu sabia que tinha feito coisas terríveis.
Um dia eu vou amá-lo em um momento que não seja roubado.
Dois meses parado no criado-mudo, três dias para terminar
O começo foi difícil, tanto pelo ritmo, que achei arrastado, quanto pelo peso de algumas cenas; certas situações me deixavam tão desconfortável que eu precisava parar. Fui priorizando outros livros e, quando vi, Alchemised estava há quase dois meses no meu criado-mudo, acumulando poeira e me lembrando daquela pendência.
Até que resolvi dar mais uma chance.
Aos poucos, fui me envolvendo com os acontecimentos e com os personagens. E depois da página 500 aconteceu uma coisa curiosa: eu simplesmente não conseguia mais parar. Eu queria entender o que tinha acontecido com Helena, descobrir as motivações de Kaine e, principalmente, ver como a autora ia fechar aquela história.


Alchemised é romantasia? Sim, mas não só
O relacionamento entre Helena e Kaine não dá para separar de tudo o que acontece ao redor deles. Tem amor, mas também tem violência, trauma, culpa e escolhas que deixam marcas profundas. Reduzir o livro a um romance entre dois personagens seria ignorar boa parte do que a autora está construindo.
Durante a leitura, me peguei questionando até onde ia a minha empatia. Em alguns momentos eu queria entender os personagens. Em outros, sentia raiva deles. E em vários precisei admitir que estava emocionalmente envolvida com alguém cujas ações eu condenaria se olhasse só para os fatos.
Adoro quando a literatura me coloca nesse lugar desconfortável. Dá para gostar de um personagem sem concordar com as escolhas dele? Dá para entender o que levou alguém a cometer atrocidades sem transformar isso em justificativa?
Você me fez sentir que as partes de mim que não são úteis ainda merecem existir. Como se eu não fosse apenas todas as coisas que posso fazer.”
Alchemised tem gatilhos? Os avisos de conteúdo
Tem, e muitos. Alchemised aborda violência de guerra, abuso, tortura, violência sexual, sofrimento psicológico e outras situações bem perturbadoras. Algumas cenas me fizeram parar porque eu realmente não conseguia continuar naquele momento. Se você está pensando em começar, vale saber disso antes. No universo de SenLinYu, a violência deixa consequências físicas e emocionais, e o sofrimento dos personagens não some só porque a história precisa andar.
Ao mesmo tempo, achei interessante que a autora não divide a guerra entre um lado totalmente bom e outro totalmente ruim. Existem interesses diferentes, decisões moralmente questionáveis e gente que acredita estar defendendo algo justo mesmo quando causa sofrimento. Isso não deixa todas as atitudes equivalentes nem justificáveis, mas deixa a discussão bem mais complexa. E foi uma das coisas que ficaram na minha cabeça depois que fechei o livro.
Vale a pena ler Alchemised?

Para mim, valeu. Gostei muito da construção da alquimia, das questões morais que atravessam a história e de como a autora cria personagens que despertam sentimentos contraditórios. E acho curioso que comecei interessada na ligação com Manacled e com Harry Potter, mas terminei muito mais envolvida com a história que SenLinYu construiu a partir disso.
Se você pretende ler, minha dica é conferir os avisos de conteúdo e não começar esperando só um romance de fantasia. É uma história longa, sombria e que exige muito emocionalmente.
Agora me conta, se você já leu: também teve sentimentos tão contraditórios com o Kaine? Porque eu ainda estou tentando entender como me apeguei tanto a um personagem que me fez questionar tanta coisa.
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SenLinYu
- Autoria:
- SenLinYu
- Editora:
- Intrínseca
- Páginas:
- 960




