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Eu queria fazer uma pausa das eleições sem sentir que estou me omitindo

Eu não sei como vocês estão se sentindo (espero que estejam bem), mas tenho achado cada vez mais difícil acompanhar as notícias sem terminar o dia completamente esgotada. Se antes eu já estava saturada das redes sociais, agora em período eleitoral nem se fala… E não precisa de muito para ser bombardeada por notícias e informações: o algoritmo faz questão de entregar tudo assim que você abre o Instagram.

Não quero que esse post seja interpretado errado, pois eu quero me informar! Saber o que está acontecendo e conversar sobre aquilo em que acredito. Também gosto de saber como as pessoas que acompanho se posicionam. Eu realmente, acho isso importante independentemente do lado político; contudo, o respeito à vida e à dignidade das pessoas não deveria estar em discussão. Só que tenho sentido uma vontade enorme de me afastar um pouquinho de tudo isso também. De abrir a internet e encontrar qualquer outra coisa: um meme, uma indicação de livro, fotografias de rotina, alguém contando como foi seu fim de semana. Coisas comuns, sabe?

Eu queria fazer uma pausa das eleições sem sentir que estou me omitindo

Acredito que ainda exista um cansaço acumulado de tudo o que vivemos nos últimos anos. Em 2021, fiz uma tatuagem inspirada em Doctor Who, uma série que amo muito. Escolhi uma frase que naquele momento fazia um sentido enorme para mim: “We are all stories in the end, just make it a good one.“

Tínhamos acabado de atravessar anos muito difíceis. A pandemia tinha deixado marcas, muitas perdas e uma sensação estranha de que alguma coisa havia mudado profundamente na maneira como nos relacionávamos. E no meio de tudo aquilo, ainda precisávamos lidar com um cenário político que parecia tornar as pessoas cada vez mais distantes umas das outras.

Para o bem da minha saúde mental, eu me afastei de algumas pessoas naquele período. E confesso que isso foi uma das partes mais difíceis. Sempre acreditei que conviver com pessoas que pensam diferente da gente é importante (sigo acreditando nisso inclusive). Acho saudável ouvir outras perspectivas, questionar nossas próprias convicções e entender que ninguém tem todas as respostas. Mas também aprendi que existem limites para aquilo que consigo aceitar em uma relação (ainda mais depois que me tornei mãe).

Uma coisa é discordar sobre propostas, economia, prioridades de governo ou a maneira de resolver determinados problemas. Outra, muito diferente, é ver direitos humanos sendo tratados como algo negociável, minorias sendo desrespeitadas ou discursos violentos encontrando espaço e justificativas. E perceber que alguém próximo de você consegue apoiar determinadas coisas muda a maneira como você enxerga aquela relação.

Foi um período em que pensei muito sobre o tipo de pessoa que eu queria ser e sobre quais valores eu gostaria de carregar comigo. Acho que foi por isso que aquela frase de Doctor Who ficou tão importante. Ela me lembrava que nossas escolhas também fazem parte da história que estamos construindo. Como eu gostaria de olhar para a minha e reconhecer alguém que tentou fazer o que considerava certo, mesmo quando isso foi difícil.

Pois bem: quatro anos depois, aqui estamos novamente. Agora sendo mãe de uma criança de 2 anos. A preocupação com o futuro, o medo de retrocessos, a quantidade absurda de informações circulando e a dificuldade de distinguir uma conversa honesta de uma discussão que só pretende provocar mais raiva …continua. E é horrível a sensação de que precisamos estar disponíveis o tempo inteiro. Reagir, argumentar, explicar, compartilhar, desmentir; aquele ciclo sem fim.

Mas até que ponto a gente consegue acompanhar tudo isso sem comprometer a própria saúde mental?

Estou pensado muito sobre isso, inclusive levando pra terapia. Se a gente não se policiar, é muito fácil deixar que tudo isso ocupe um espaço enorme dentro da nossa cabeça. Pois as nossas obrigações não param: a gente continua trabalhando, cuidando da casa, da família, tentando manter a rotina..

Por isso, tenho tentado me lembrar de que PRECISO fazer pausas. Posso fechar as redes sociais, brincar com a minha filha, ler algumas páginas de um livro ou passar uma tarde fazendo alguma coisa que gosto. Posso escolher não participar de uma discussão quando percebo que ela não vai levar a lugar nenhum.

Isso não significa abandonar minhas convicções.

Acredito que precisamos encontrar maneiras mais saudáveis de continuar participando dessas conversas. Compartilhar informações verificadas, ouvir quem está preocupado, acolher pessoas que se sentem vulneráveis e lembrar que existem outras pessoas que também desejam uma sociedade mais justa. Às vezes, uma conversa tranquila pode oferecer muito mais apoio do que uma sequência interminável de discussões.

E é importante reconhecer que nem todo mundo consegue simplesmente se afastar. Existem pessoas cujos direitos e segurança estão diretamente envolvidos em muitas dessas decisões. Para elas, esse período pode trazer preocupações que vão muito além do desgaste provocado pelas notícias.

Não quero deixar de falar sobre o que acredito. Nem quero me acostumar com a violência, desinformação ou com a ideia de que desrespeitar alguém é apenas uma maneira diferente de pensar. Mas também não quero passar os próximos dias vivendo em um estado permanente de ansiedade, sentindo que preciso convencer o mundo inteiro de alguma coisa.

E tem sido uma das coisas mais difíceis desse período: encontrar esse equilíbrio.

Espero que, quando esse período passar, a gente consiga olhar para trás e sentir que fez o possível para defender aquilo em que acredita, sem esquecer das pessoas que estavam ao nosso lado. Por enquanto, acho que vou preparar mais uma xícara de chá e ficar um pouquinho longe das notícias. Amanhã continuo acompanhando.

E queria saber de vocês: como estão vivendo esse período eleitoral? Também sentem essa mistura de preocupação, cansaço e vontade de fazer alguma coisa, mesmo quando tudo o que precisam naquele momento é de uma pausa?

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