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O Mar sem Estrelas – Erin Morgenstern
ou o que acontece quando a gente encontra, por acaso, uma história que parece ter sido escrita pra gente

Índice

    Quando terminei de ler O Mar Sem Estrelas, fiquei com aquela sensação difícil de traduzir. Aquela que aparece quando a gente sai de um sonho bom, ou de uma conversa profunda, e precisa voltar ao mundo real, mas não quer. Não porque a vida esteja ruim. Mas porque o lugar onde a gente estava parecia mais vivo, mais sensível, mais mágico.

    Foi exatamente assim que me senti ao virar a última página: entre encantada, tocada e um pouco perdida. Como quem acorda de um mergulho longo e precisa reaprender a respirar.

    Desde o início, eu sabia que O Mar Sem Estrelas não seria apenas uma leitura. Era uma experiência. Daquelas que não acontecem sempre e que, quando acontecem, deixam marcas.

    Estranho, não acha? Amar um livro. Quando as páginas se tornam tão preciosas a ponto de parecerem parte da sua própria história

    O Mar sem estrelas

    A história começa com Zachary Ezra Rawlins, um jovem estudante de pós-graduação que um dia, na infância, encontrou uma porta pintada num muro. Uma daquelas portas que parecem fora de lugar, que só crianças curiosas conseguem ver. Ele se aproximou, quis abri-la… mas recuou. Por medo, vergonha ou apenas porque cresceu rápido demais naquele momento.

    Anos depois, ele encontra um livro misterioso numa biblioteca. E ao abri-lo, lê algo inacreditável: ali, entre capítulos e parágrafos soltos, está descrito exatamente o momento em que ele viu aquela porta. O gesto que não completou. A escolha que não fez.

    E é aí que começa tudo.

    Zachary entra, sem querer, num universo que mistura mitologia, realidades paralelas, bibliotecas subterrâneas e histórias inacabadas. Um mundo onde o tempo não é uma linha reta, onde as palavras têm cheiro e textura, onde cada objeto pode ser um portal, e onde o leitor é convidado a mergulhar numa experiência sensorial.

    Mas o que O Mar Sem Estrelas entrega vai muito além da fantasia. O que ele nos oferece é um espelho mágico para refletirmos sobre as nossas próprias escolhas. As portas que encontramos. As histórias que deixamos de contar. As que começamos, mas abandonamos. Ou aquelas que estavam esperando a gente abrir (e não abrimos).

    A escrita de Erin Morgenstern é pura poesia. Há passagens que li mais de uma vez, não porque não entendi, mas porque não queria sair delas. O jeito como ela descreve os ambientes, as emoções, os símbolos tudo é carregado de uma delicadeza rara. Cada capítulo parece escrito com intenção. E ainda que a trama seja complexa, cheia de camadas, ela não se torna confusa. Ela apenas exige entrega.

    O livro tem um ritmo próprio

    Às vezes flui como um rio calmo. Às vezes se arrasta como um sussurro. Mas nunca se apressa. É como se ele dissesse: “você pode ficar aqui o tempo que precisar”. E eu fiquei. Li devagar, sublinhei trechos, fechei o livro para respirar. E voltei.

    Uma das coisas que mais me encantou foi a forma como Erin mistura realidade com imaginação sem precisar justificar. O mundo subterrâneo que Zachary descobre não precisa “fazer sentido” no modo tradicional ele precisa ser sentido. E é exatamente isso que acontece. A cada página, o leitor se vê dentro de uma história que fala sobre todas as histórias. E, no fundo, sobre a nossa história também.

    Enquanto acompanhava Zachary pelas passagens secretas, pelas sociedades misteriosas e pelas páginas perdidas de livros antigos, comecei a pensar nas minhas próprias portas. Naquelas que encontrei e não abri. Naquelas que talvez ainda estejam por aí, esperando. E nas histórias que já vivi e nas que ainda posso escrever.

    É difícil descrever O Mar Sem Estrelas sem recorrer a palavras como “mágico”, “onírico”, “metafórico”. Porque ele é tudo isso. Mas é também profundamente humano. Fala sobre solidão, sobre pertencer, sobre encontrar o próprio lugar mesmo que seja um lugar inventado. Ou talvez exatamente por isso.

    Há uma biblioteca subterrânea nesse universo.

    Mas ela não é apenas um cenário. Ela é uma metáfora viva. Representa tudo aquilo que guardamos em silêncio. Os sonhos, os medos, os desejos, as memórias. Os arquivos da alma. E caminhar por ela junto de Zachary é quase como caminhar por dentro de si mesmo.

    O livro também é recheado de histórias dentro de histórias. Pequenos contos, fragmentos, parábolas todos entrelaçados com a trama principal. À primeira vista, podem parecer desconexos. Mas com o tempo, percebe-se que cada um tem um propósito, um eco, uma função. Como se Erin estivesse nos ensinando que toda história importa. Até aquelas que ninguém lê.

    Confesso que terminei a leitura com uma saudade estranha. Daquelas que não têm rosto, mas têm presença. Me deu vontade de escrever, de desenhar, de criar. De deixar uma história minha nascer.

    O Mar Sem Estrelas não é para todos. É para quem gosta de ser levado com calma. Para quem aceita se perder. Para quem não precisa de respostas imediatas. Para quem acredita que a vida, assim como a ficção, pode ser bonita mesmo quando não faz sentido nenhum.

    – Poético – repete Mirabel. – O tempo. É como um poema, em que cada palavra é mais do que uma coisa ao mesmo tempo e tudo é uma metáfora. O significado condensou-se no ritmo e no som e nos espaços entre as frases. É tudo intenso e cortante, como o frio e o vento.

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    O Mar sem estrelas

    Erin Morgenstern

    Autoria:
    Erin Morgenstern

    ISBN:
    9786586015225

    Editora:
    Morro Branco

    Páginas:
    544
    Quando Zachary Ezra Rawlins descobre um misterioso livro escondido na biblioteca de sua universidade, isso o leva a uma busca como nenhuma outra. Em meio a suas inebriantes narrativas sobre prisioneiros apaixonados e cidades perdidas, ele se depara com algo impossível: uma história de sua própria infância. Determinado a obter respostas que este livro sem título ou autor se recusa a prover, Zachary deve seguir as únicas pistas que encontra na capa – uma abelha, uma chave e uma espada. Em seu caminho, surgem duas pessoas que mudarão o curso de sua vida: Mirabel, uma impetuosa pintora de cabelos cor-de-rosa, e Dorian, um belo e enigmático homem descalço. Navegando por bailes de máscaras e sociedades secretas, este é só o início de uma missão que o levará a um estranho labirinto subterrâneo, às margens do Mar Sem Estrelas. Um mundo maravilhoso de túneis sinuosos, cidades perdidas, amantes eternos e histórias a serem preservadas, custe o que custar…

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    comentários

    • Ludymila Sampaio

      Suas fotografias são lindíssimas, tal qual a história. Poesia visível!

      responder
    • Dai Castro

      AHHH eu só estou vendo elogios para essa obra! Aliás, tenho muita curiosidade em relação ao O circo da noite tbm!
      Que fotos perfeitas ? Amei

      responder
    • Aline Amorim

      Fiquei muito curiosa para ler esse livro, estou precisando de histórias cativantes pra eu voltar a ler mais. Já estou pesquisando sobre o livro pra eu adquirir.
      Beijos

      responder
    • carol justo

      Eu amei, já coloquei o livro na minha listinha de leitura.
      To parada com a leitura devido estresses da mudança, mas to louca pra me mudar logo e ter um tempinho para parar e ler.

      beijosss
      Carol Justo | Justo Eu?!

      responder
      • Clayci Oliveira

        Totalmente compreensível Ca ?
        Quando puder e quiser fugir dessa realidade doida, acho que esse livro vai te ajudar

        responder
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