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Coisinhas que me ajudam quando me sinto invisível

Esse post foi mentalmente escrito enquanto eu preparava a janta da Cora com uma mão e tentava impedir que ela jogasse a colher no chão com a outra. Pode conter vestígios de legumes amassados, pensamentos interrompidos e muito amor envolvido.

Hoje cedo, enquanto preparava o café com uma mão e segurava a Cora com a outra, percebi o quanto eu estava no modo automático. Quando o Di tá no trabalho presencial, eu preciso me desdobrar em dez pra dar conta de tudo (a Cora, o trabalho, a casa). E nessa correria, às vezes eu nem percebo que fui ficando pra depois.

Sabe aquela sensação de ir se apagando? Foi num desses momentos que me perguntei, bem baixinho: onde foi que eu me deixei por último? E a real é que eu sei a resposta…

Coisinhas que me ajudam quando me sinto invisível

Quando começo a me sentir invisível busco refúgio nas pequenas coisas que me lembram de quem sou. Elas não resolvem tudo, mas são um começo. Um sopro de volta. Separei aqui cinco coisinhas que me ajudam a voltar:


1. Trocar de roupa, mesmo que eu vá continuar em casa

Pode parecer bobo, mas sair do pijama já muda completamente meu astral. Não tô falando de me arrumar inteira ou montar look de Pinterest, mas de colocar uma roupa confortável que me faça sentir viva — uma blusa que gosto, uma calça que não aperta, às vezes até um brinco pequeno ou um rímel só pra dar um sustinho na autoestima.

Tem dias em que a única pessoa que vai me ver sou eu mesma (e a Cora, claro, que já me viu em todas as versões possíveis). Mas ainda assim, trocar de roupa é um lembrete gentil: você não sumiu. Você ainda tá aqui, mesmo entre louça, mamadeira e reunião com o microfone desligado.


2. Comer algo só porque eu gosto (e não porque sobrou)

Tem dias em que eu percebo que passei a manhã toda só beliscando o que a Cora deixou no pratinho (um pedacinho de fruta mordido, meia colher de arroz, uma torradinha esquecida no canto.) E aí, quando paro pra pensar, vejo que nem lembro qual foi a última vez que sentei e comi algo só porque eu queria.

Então, quando dá, eu faço um resgate: preparo uma comidinha simples, só pra mim. Um pão na chapa com bastante manteiga, café passado na hora, às vezes até um pedacinho de chocolate escondido na gaveta. E como devagar, sentada mesmo que por cinco minutos, com o celular longe. Nesse momento, parece que o mundo desacelera só um pouquinho — e eu volto a lembrar que eu também mereço sabor.


3. Fechar os olhos por cinco minutos sem culpa


Não é soneca, é só descanso. Quando a Cora finalmente dorme (e o universo conspira pra ela não acordar alguns minutos depois), eu aproveito esse respiro. Se o trabalho não tá pegando fogo e nenhuma notificação grita por atenção, eu me permito deitar um pouquinho; às vezes nem tiro o chinelo, só encosto no sofá, fecho os olhos e fico ali.

Tem barulho ao redor, claro. A máquina de lavar, o carro do ovo, o eco da lista mental de tarefas. Mas mesmo assim, por alguns minutos, eu desligo. E lembro que ainda existe um mundo aqui dentro, feito de silêncio, de cansaço e também de cuidado.


4. Me permitir ignorar mensagens por algumas horas


Já me peguei abrindo mensagens enquanto trocava uma fralda, respondendo e-mail com uma mão e equilibrando algum brinquedo com a outra. Mas a verdade é que nem tudo precisa de resposta imediata e isso foi algo que precisei aprender na marra (e com muita culpa no início).

Hoje, quando o cansaço pesa, eu silencio as notificações sem medo de parecer ausente. Fecho o app, viro o celular com a tela pra baixo e respiro. Porque o mundo pode esperar uns minutinhos, mas eu… eu não posso continuar me deixando pra depois o tempo todo. Às vezes, ignorar uma mensagem é só mais um jeito de cuidar da minha sanidade.


Coisinhas que me ajudam quando me sinto invisível
5. Fazer algo só porque sim

Nem tudo precisa de motivo, utilidade ou produtividade. Tem dias em que acendo uma vela só porque gosto do cheirinho espalhado pela casa. Em outros, coloco uma música antiga e danço com a Cora no colo, mesmo que a sala esteja uma bagunça. Às vezes passo um perfume antes de dormir; e o Di sempre percebe, mesmo que eu diga que é “só pra mim”.

Essas coisinhas sem função prática são, na verdade, pequenas declarações: “eu ainda sou eu, mesmo quando tudo gira em torno de cuidar de alguém ou entregar alguma demanda”. Fazer algo só porque sim é meu jeito de não esquecer que, dentro de mim, ainda mora alguém que sonha, sente, cria e respira, mesmo nos dias mais corridos.


Ser mãe me trouxe muitas camadas novas, mas também me ensinou o quanto é fácil se colocar por último na fila. E quando percebo que tô quase me apagando, volto pro básico: respiração, silêncio, chá, palavra, afeto.

Me sentir invisível não significa que eu deixei de existir. Só preciso, de vez em quando, lembrar onde é que eu tava. E me buscar com carinho.

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comentários

  • Aline Amorim

    Uma coisa que eu não consigo mais é ficar em casa de pijama. Fazia isso muito na pandemia, mas depois da maternidade eu preciso trocar de roupas pra sentir menos cansada. Amei o post.

    responder
  • camillepaes9@gmail.com

    Bom… o que dizer?
    Eu podia falar por horas da qualidade dos seus conteúdos, do capricho e da beleza da sua escrita e das suas redes. Confesso: este blog é um espaço que me dá aquele quentinho no coração, daqueles que a gente guarda com carinho. Sou das antigas…
    E como já disse lá no começo, eu poderia repetir tudo isso e encher a memória. Mas quando encontrei seu conteúdo, algo mudou: eu respirei, eu me conectei. Lembrei que mereço ser feliz, que as pequenas alegrias estão muito mais perto do que eu lembrava… Que há poesia escondida na rotina, e que existem cliques capazes de capturar a alma — isso você faz lindamente.
    Feliz vida! E quando vier pra Curitiba, vem tomar um café comigo.
    Abraços — não da fono, não só da estudante eterna, não apenas da filha ou da irmã mais velha… mas da Camille. A Camille que hoje recebeu um abraço através do seu texto.
    Beijos de luz ??
    Estou te seguindo também.
    Te envio uma ? no direct kk.

    responder
  • Andréa Morais

    Nossa, seu texto me tocou profundamente. Apesar de não ter filhos, também me sinto afogada pelas tarefas e urgências da vida adulta de um jeito que também esqueço de mim. No meu caso, gosto de colorir e de ficar deitada quietinha ouvindo música. Gosto muito de ler suas reflexões, Clayci!

    responder
  • Jessica M.

    Olá, Clayci!
    Recentemente também venho tentando resgatar um pouco desse sentimento de me cuidar, e tirar um tempinho para fazer coisas que eu gosto além das que precisam ser feitas.
    Isso tudo ajuda a manter o equilíbrio.
    Seus textos sempre têm essa vibe de respirar fundo e se sentir acolhida num dia de outono chuvoso <3
    Beijos

    responder
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