Eu amo Dark Academia. Amo livros ambientados entre bibliotecas antigas, salas abafadas, debates filosóficos e personagens obcecados por saber (e por aprovação). Então quando descobri Katabasis, da R.F. Kuang, fui com tudo. Estava empolgada, esperando algo entre Babel, e A Canção de Aquiles com giz mágico e discussões metafísicas. E recebi uma espiral emocional desconfortável. Um inferno pessoal travestido de missão acadêmica. E, no fim das contas, gostei. Não tanto quanto gostaria, mas o suficiente para sair pensando por dias.
A conclusão é que o Inferno não é tão ruim para quem está nele. Essas almas estão exatamente onde queriam estar.
Comecemos pelo básico: Alice Law é uma aluna de pós-graduação obcecada pela carreira acadêmica. Ela não quer só ser boa; quer ser a melhor. E, para isso, está disposta a tudo. Seu maior sonho é trabalhar com Jacob Grimes, a lenda viva de Cambridge, uma mistura de gênio e monstro. Alice se submete à exaustão, à humilhação e ao desprezo em nome de uma carta de recomendação.
Até que Grimes morre. E ela o matou. Acidentalmente, mas ainda assim, morreu por causa dela. Calma, isso não é um spoiler. Só que Grimes vai parar no Inferno. Literalmente.
E Alice decide que vai trazê-lo de volta.

Sim, é exatamente isso: Katabasis é a descida de Alice ao Inferno, seguindo a tradição da literatura clássica; katabasis, em grego, significa “descida“. A referência mais direta, claro, é A Divina Comédia de Dante. Alice e Peter Murdoch, seu rival acadêmico, percorrem os círculos do Inferno numa missão que parece clara no início: encontrar a alma de Grimes. Mas conforme descem, percebemos que essa não é uma jornada de ação, é uma jornada de desconstrução. Do eu. Da fé. Sanidade. Da academia como propósito de vida.
E é aqui que preciso ser honesta: eu não consegui gostar da Alice. Juro que tentei. Em vários momentos achei que estava prestes a entender sua lógica, a me conectar com sua angústia. Mas quanto mais a história avançava, mais eu me sentia afastada. Alice é obsessiva, fria, cega. Há um desconforto constante em estar dentro da cabeça dela. E talvez essa tenha sido a intenção da autora: mostrar o quão destrutivo é colocar todo o seu valor em um sistema que constantemente te rejeita. Ainda assim, minha empatia não veio.
Peter, por outro lado, é um caos adorável (como me sinto culpada por gostar desse personagem, só consigo pensar no meme do Hades: ele é HOMEM!) Sensível, irônico, absurdamente inteligente, e (muito) ressentido. Os dois vivem num eterno cabo de guerra emocional. O relacionamento deles (que flerta o tempo todo com rivalidade, desejo, raiva, afeto e frustração) é o ponto mais interessante do livro. A dinâmica “eles vão se beijar ou vão se matar?” está presente o tempo todo. E em um livro onde quase nada acontece em termos de ação, essa tensão mantém tudo em movimento.

NOTA MENTAL: FINALIZAR BABEL
A escrita de R.F. Kuang é elegante e pesada ao mesmo tempo. Há parágrafos que beiram o acadêmico: termos técnicos, teorias mágicas, referências históricas. O ritmo é lento, mas não sem intenção. A leitura exige paciência. As cenas não são para te levar ao próximo capítulo, são para te manter ali remoendo culpa, cansaço e o vazio de quem apostou tudo numa instituição que nunca te enxergou.
Me vi identificada em vários trechos. Especialmente quando Alice admite que nunca teve uma paixão verdadeira pela sua área (só era boa o bastante para seguir em frente). Só queria reconhecimento. Queria um lugar. Ser lembrada. E não é isso que todos queremos, de algum modo?
O Inferno, aqui, é tão simbólico quanto literal. Cada círculo traz reflexões, mas não necessariamente desafios externos. O leitor não quer saber como Alice vai sair viva quer saber o que ela vai descobrir de si mesma ao passar por tudo aquilo. A ambientação é ótima (obrigada, Dante), mas a ação, quando existe, é interna. É existencial. É filosófica. E é por isso que, apesar de alguns momentos arrastados, eu segui até o fim.
Não é uma leitura fácil. Mas é uma leitura que compensa (se você, como eu, gosta de histórias densas, acadêmicas, com personagens imperfeitos e tempo para refletir). Katabasis não quer que você goste de todo mundo. Quer que você olhe para dentro. Que pense na sua própria jornada. No que você abriu mão. No que te sustenta. E no que te destrói.
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R.F. Kuang
- Autoria:
- R.F. Kuang
- Editora:
- Intrínseca
- Páginas:
- 480




Nat
Confesso que não sou uma pessoa que lê muito livros, aliás quase nenhum. Uma coisa muito ruim, mas estou tentando mudar, juro.
Mas amo ler resenhas e depois colocar o livro como “quero ler” no skoob. Esse pode ser um desses momentos, haha.
Gostei de como você descreve a jornada da Alice e deixa claro que o livro não é fácil. Também gosto de livros que ficam na nossa mente por muito tempo, que nos fazem refletir sobre tudo. No fim, amei a resenha.
Beijos!
Clayci Oliveira
Oi Nat!! Ah, fico muito feliz de ler isso
Ler resenha também é um jeito de estar perto dos livros — e o Skoob que lute com essa lista de “quero ler”, né? Obrigada pelo carinho e pela leitura tão atenta. Se a resenha já ficou, o livro cumpre o papel dele quando (e se) chegar a vez.
Dulce Nicolle
Ahhh, eu gaitei quando abri e vi essa resenha aqui. Eu simplesmente amo a R.F Kuang <333
Estou no meio da leitura de Babel, livro maravilhoso por sinal, e quando lançou Katabasis já fiquei ansiosa para conseguir ler esse na próxima leitura. Ainda mais quando soube ser uma vibe de Dante, o que é ainda melhor. O fato de você ter dito que a Alice é uma personagem difícil de gostar já me ganhou ai, porque AMOO personagens detestáveis, há algo sobre eles que me deixa à beira de uma crise de ansiedade/raiva, ao mesmo tempo que é porque eu compreendo que me vejo neles. Para mim, personagens detestáveis são essenciais em uma leitura (para aprender sobre si mesmo, principalmente, como você citou mais para o final).
Agora, o que me ganhou MESMO foi essa frase "não podem se refugiar no feminismo quando convém" ME GANHOU AI! Eu vou, com toda a certeza, colocar para ser prioridade no próximo da minha lista. E nem comento que amo o fato dos livros da R.F Kuang serem difíceis, eu vejo como um tipo de desafio (ela faz muito isso em Babel, mas até agora não tive tanta dificuldade, o meu receio é eu não entender Katabasia porque dizem as resenhas por aí na net'sfera que tem matemática… mas acho que posso colocar 5km nessa bike aí, eu acho). Eu poderia fazer toda uma análise só com essa frase em relação ao feminismo, mas guardarei para quando ler o livro e fazer o meu textão com opiniões. ksksksks.
Amei <333
Clayci Oliveira
Eu senti essa empolgação daqui
E sim: personagens difíceis de gostar dizem muito mais sobre a gente do que os “perfeitinhos”. A Alice me provocou exatamente nesse lugar desconforto, identificação, irritação, tudo junto.
Essa frase sobre o feminismo nasceu bem desse incômodo mesmo, de não romantizar certas posturas só porque vêm de mulheres. Fico muito feliz que tenha te pegado também.
Quando você ler, vou amar ver esse textão acontecer