Livros, Questão de Diálogo


Duplo eu – Como você enxerga a si mesmo?

Se em algum momento da sua vida você precisou passar por algum processo de emagrecimento, vai se identificar com essa história. Duplo eu é um quadrinho publicado pelo selo Nemo. A obra foi ilustrada por Audrey Laine e escrita por Navie, que, de forma tão sensível, decidiu compartilhar a sua luta contra a obesidade.

Que sentimento infernal, esse de ter a impressão de nunca ser boa o suficiente. Está constantemente nas nossas cabeças, como um diabinho que nos sussurra: ‘Você é uma merda’.

Duplo eu

Enquanto Navie apresentava a sua história, consegui relembrar de algumas cenas na minha adolescência. Das vezes em que me escondia para não ouvir uma piada sem graça; dos convites que eu recusava por achar que não ficava bem com nenhuma roupa. Sei que essa história foca na luta contra a obesidade, mas independentemente das proporções e aparência do seu corpo; se você não está satisfeito com a sua imagem e deixa esse sentimento transparecer, você passa a viver um pesadelo. Não se sinta culpado(a) por isso; o que quero dizer é que as pessoas poderão notar esse sentimento e o usarão para afetar você de alguma forma.

Você se lembra da primeira vez que enxergou defeitos em seu corpo?

No meu caso, o processo de emagrecimento começou da seguinte forma: no colegial. Pois dentro de casa, eu nunca tive problemas com relação ao corpo. Minha mãe, que também sempre esteve acima do peso, nunca deixou isso ser um obstáculo para ela. Porém, foi no colegial que comecei a me olhar no espelho com outra visão e a enxergar inúmeros defeitos no meu corpo. Comecei a me questionar. Também comecei com uma dieta, cortando tudo o que eu gostava e, de repente, estava em um consultório médico questionando sobre a possibilidade de usar medicamentos.

Pensei que as coisas melhorariam quando eu estivesse em um relacionamento. Contudo, a insegurança só aumentou. Pois vivia ao lado de uma pessoa que fiscalizava tudo o que eu comia. Comecei a evitar espelhos, festas, reuniões, pessoas. Assim como Navie, eu mentia para todos. Sempre que me perguntavam como eu estava me sentindo; colocava um sorriso no rosto e respondia que tudo estava bem. As coisas só começaram a melhorar, de verdade, quando parei de lutar contra eu mesma. Ainda tenho algumas das minhas inseguranças, porém não enxergo mais o meu reflexo como um inimigo.

Por isso eu me identifiquei tanto com Navie. Pois, além de mentir para si mesma, ela também conseguiu convencer todos à sua volta de que ela estava bem e satisfeita com a sua aparência. Em Duplo Eu, Navie mostra a importância do diálogo e da transparência. Ela compartilha a luta contra o seu corpo e a pressão que a sobrecarrega por conviver com essa angustia. Ver amigos e profissionais da saúde criticando o seu tamanho fez com que ela se sentisse culpada por ser quem realmente é.

Você sofre de duplo eu?

Foi em uma consulta, que Navie se deu conta de que sofria de “duplo eu”. Ela carregava uma segunda identidade que a consolava em momentos difíceis. Esse “Duplo eu”, era responsável por alimentá-la de forma compulsiva em todas as adversidades. Ao ser “diagnosticada” dessa forma, Navie se sentiu aliviada por não ter que assumir a culpa toda sozinha.

Determinada, Navie resolve dar um basta e sumir com essa segunda personalidade. Ela mudou os seus hábitos alimentares e começou a se exercitar. Foi um período difícil, mas ela estava cansada de carregar esse sofrimento em silêncio. Tanto que, além de mudar a sua rotina, decidiu buscar ajuda clínica para conseguir perder peso. Mas será que, mesmo depois desse procedimento, ela vai conseguir se livrar desse “duplo eu”?

Terminei esse quadrinho tão reflexiva! Navie e Audrey conseguiram representar as dores, dificuldades e angústias de ser gorda nos dias atuais. Mais do que isso, Duplo eu, consegue nos fazer pensar sobre os distúrbios que a ansiedade pode provocar. De uma forma honesta, as autoras trazem uma discussão absolutamente necessária. Navie luta contra o seu peso, porém, durante esse processo, é possível refletir sobre como conduzimos a nossa vida. Sei que esse quadrinho foi publicado aqui no Brasil em 2019; mas diante de tudo o que estamos vivendo, essa história se torna ainda mais pertinente. De acordo com o Instituto de Psiquiatria Paulista, o fato de estarmos em quarentena, pode acabar desencadeando processos de compulsão alimentar. A pandemia provoca ansiedade, medo e estresse; isso faz com que nos sintamos ameaçados.

Questão de Diálogo: Duplo eu

Durante a leitura, Navie compartilha com o leitor a sua angústia em ter que mentir o tempo todo. Ela é casada, mãe e sempre que se encontra com os amigos passa a imagem de que está feliz e satisfeita com a sua aparência. No entanto, ela se incomoda, e muito, com os olhares que atrai. Navie sofre de hiperfagia (transtorno alimentar caracterizado pela ingestão excessiva de alimentos em um curto período de tempo). Apesar desse vício, ela nunca apresentou problemas de saúde que geralmente surgem com a obesidade. Mas sempre precisou lidar com comentários de que era preciso emagrecer, pela saúde e bem dela.

Esse quadrinho é perfeito para discutir como esses comentários podem realmente ajudar ou destruir uma pessoa. Em um determinado momento da história, os amigos de Navie se sentem inseguros para falar a respeito. Eles não sabem como ela irá reagir, por isso evitam falar sobre o peso dela. No entanto, Navie também se sente culpada por não ser sincera com eles. Ela precisava desabafar e colocar o que tanto a incomodava para fora, mas não sabia como.

Criando um ambiente acolhedor e sem julgamentos

Pessoas com obesidade são ridicularizadas frequentemente. Muitos não entendem a complexidade dessa doença. Por essa razão precisamos criar um ambiente acolhedor. Assim como todas as doenças crônicas, a obesidade tem causas profundas e provenientes de diversos fatores: dietéticos, de estilo de vida, genéticos, psicológicos, socioculturais, econômicos e ambientais. E até combinações deles. Navie acreditava que o seu único problema era o peso. Ela achava que toda a sua angústia e ansiedade acabaria quando emagrecesse. Mas ao enfrentar esse problema de frente, pode descobrir problemas mais graves.

O Dia Mundial da Obesidade, no dia 04 de março, incentiva soluções práticas para ajudar as pessoas a alcançarem e manterem um peso saudável. Mostra a importância de realizar um tratamento adequado e reverter a crise da obesidade. Não é apenas uma questão de peso. O objetivo é restringir a comercialização de alimentos e bebidas com alto teor de gorduras, açúcares e sal para crianças; assim como melhorar o acesso a alimentos saudáveis. Abrir espaço para atividades como: caminhadas, ciclismo e recreação; e que sejam seguros. Bem como também ensinar às crianças hábitos saudáveis, para que carreguem isso por toda sua vida.

Pessoas com obesidade são também vítimas de piadas, julgamentos e escutam de muita gente que precisam emagrecer o quanto antes. A gordofobia revela o preconceito de pessoas que julgam o excesso de peso e a obesidade como um fator que mereça seu desprezo. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a obesidade é vista como um dos maiores problemas de saúde pública da atualidade no mundo. Cerca de 30% dos pacientes que buscam tratamento para a perda de peso apresentam depressão (fonte). Essas pessoas precisam de atenção, e não julgamentos.

Pense antes de falar…

Portanto, antes de falar do corpo de um amigo, veja se ele se sente confortável para conversar sobre o assunto. E evite expressões gordofóbicas em seu vocabulário. Frases como: ““Ela é tão bonita de rosto”, “Gordice”, “Você devia cuidar mais da sua saúde”, “Nossa, como eu estou gorda!” só reforça a ideia de um padrão que precisa ser seguido. Gostou do quadrinho? Já leu?

O projeto Questão de Diálogo nasce com o intuito de expandir a divulgação de trabalhos de literatura ilustrada que focam temas sociais dos mais diversos e que possibilitem gerar conversas construtivas entre o público, levando a uma consciência mais ampla sobre os assuntos. Saiba mais sobre o projeto.

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Duplo Eu

Navie

Autoria:
Navie

ISBN:
9788582865095

Editora:
Nemo

Páginas:
144
Um dia, Navie percebeu que estava carregando o peso de uma segunda pessoa. Um duplo que ela teve de eliminar para sobreviver. Navie estava doente. Tinha obesidade mórbida e sofria todos os dias com um sorriso no rosto. Aceitar-se é sempre difícil, mas para Navie amar a si mesma era como amar um reflexo de seu sofrimento. Ela tinha um duplo, carregava o peso de uma segunda pessoa de quem ela tentou fugir, tentou amar e finalmente matar. Mas como você se mata sem morrer? Este é um testemunho raro e forte de uma luta que por vezes travamos com nós mesmos. Se você já teve medo do olhar dos outros, se já comeu para se sentir melhor, se faz qualquer coisa para que gostem de você, se já se calou ainda que quisesse gritar, se já se enganou dizendo que está tudo bem ainda que por dentro o Titanic estivesse afundando, se já se viu no espelho e desprezou o que via, se já se tratou como burra, idiota, se ama sexo e piadas embaraçosas, se nunca encarou seu reflexo e disse: eu te amo… Este livro é para você. Excesso de peso envolve todo mundo, que seja no corpo ou no coração.

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comentários

  • Clarissa

    Primeiramente, to apaixonada pelo teu blog!!! Quero viver aqui dentro agora, sério. Muito lindo <3
    Sobre essa HQ, pareceu super importante, eu gosto muito quando elas são assim com um caráter mais sério, mas ainda assim "divertido" de ler pela estética. Acho que prende nossa atenção total. Já quero ler!

    Beijos

    responder
  • Nana

    Olá
    Não conhecia essa HQ e estou encantada com a abordagem dela. Deu para se identificar com vários pontos.

    até mais,
    Canto Cultzíneo

    responder
  • Leyanne

    Ainda não conhecia a obra, mas adorei pelo tema importante e pela forma que ele fala do assunto. Estou amando seu projeto, e muito feliz em receber essa indicação.

    Abraço

    Imersão Literária

    responder
  • Laura

    Oi, Clayci! Que post sensível e importante!
    Ainda na infância sofri muito bullying por ser mais gordinha que as outras meninas. Isso se estendeu até o Ensino Médio, e demorei muito tempo pra entender que não tinha nada de errado com meu corpo!
    Hoje, carrego cicatrizes desse período e tento sempre enxergar minhas melhores qualidades ao invés de focar nos defeitos.
    Fiquei super interessada no livro, e quero muito lê-lo ?

    responder
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